20090526

POESIA SÉCULO VINTEEUM OU ESTA NOITE DORMIU-SE MAL E ASSIM SE LEVANTA PARA UM CAFÉ FRIO MAS CHEIO DE ILUSÕES







Assumido

nunca mais o estalido e a rima
assim com laranjadas véus tonéis
- almas -
maciezas subterfúgios umbrais
nunca mais esse lustre vocal
essa odalisca que se repete em tantos
vasos venéreos de chocar
chorar e enócoas em geral
essa cartografia menádica
nunca mais Sá-Carneiro Ana C
as lástimas pedrarias reclusas
vida vitimada por um dicionário
de estética medieval

agora branco tudo
chega do azul do cinza do chumbo
é para sempre que digo fim
a todas as palavrinhas tão românticas
decantadas e sonâmbulas ai
de mim nunca mesmo quero longe
as sãs sacadas as caveiras das
palavras que o desejo poste altivo
se pôs deitado para que morram
este verso este orifício testamento
amaro esta vernacular forma de
cortar a linha que se podia desviar

agora nem também metonímias
multimídia e seus laxantes tabletes
de estar em todo tempo grandes noigandres
lá e cá feiras de poesia gente tocando
trombeta para toda gente lá do
poema lido e decorado e aqui pó
posto como estrume a ceifar fragmentárias
roseiras tempos pós-modernos leseiras
Freud Jung Lacan deixem-me vã
agora nunca mais semióticas cisões
pelos poros da aventura agora nem fadas
nem desusos, nem mitos nem regurgito
à maneira de virtuais pistões


agora inútil emendo a branco
fico muda
besta
,além do mais





20090330

desaparecimentos
- eis a palavra atenciosa
descansada no meu território




(tela a óleo, de Sergio Lucena)

20090213

Evana Komaris






em toda casa um cômodo que acanha
uma criança medonha uma doença da fragilidade
roída para debaixo de nossas alas
em todo quarto o armário sonâmbulo que extravia
a porta a abrir uma porta a fechar
sentados os invictos da masmorra mastigam
a carne assada de um nobre porco silvestre
balbuciando nas faces um desdém interdito
e livre
uma sincera fuga por dentro do garfo
a criança acolhida em suas tranças
que logo serão tolhidas
sabe de todos os jogos e malícias e atua muito bem
por fora de seu espantalho
seu corpo temido e venéreo seu corpo acobertado
com tralhas e bonecas e palavras que não combinavam
com aquele olhar da mãe aquele olhar salubre da família

e só assim eu tento o lastro jubiloso
olhando pelo negativo das caras
aquele meio-fio negro e branco
aquela caricatura de bolhas
ameaçadas dentro das minhas axilas

aquele código que circula
na voz da horrível vida
do sangue

20090211

Memória de Lúcia

fomos atravessadas pelo baldio cheio
destravamos a distância das inadequações
um borrão de vento sopra agora o tímpano
para que o espelho se estilhace sobre o corpo sem retorno

agora tu não me conheces mais
agora tememos o ninguém que nos tocávamos
e todo o dito nos atravessa pelo buraco
do que não foi dito do que nunca poderá
ser dito

de outra maneira como o rio
com um facão na algibeira não havendo mais
lugar
para o cajado da fábula percorrida
nessa passada década de nós

ensaiamos chegar aqui
libertas
esse é o nosso saturno
desfazendo seus anéis translúcidos
sobre nossos pés
aos teus pés
um frio avança desviante
sinto-a em mim
como um trago feito em viagem
uma alucinação calma e
duradoura

sacrificada
em repouso na selvagem
hora
de nossas diferenças









cena de "A Montanha Sagrada", com Leni Riefenstahl