20120620
inglês não é uma língua possível ___________ (achado recente em caderno de viagem, porque o voyerismo é uma espécie de contramola das imposições ou porque 'há sempre alguém falando inglês ao seu lado" [mero esmero ou seja rascunho] / tirado de um bonde em Lisboa quando entrou um senhor de turbante e celular e o bonde inteiro emudeceu
20120614
20120606
20120605
minhas mulheres
ocas
virgens
decantadas
Ana C.
Katherine
nadir de linho
ou cavalgada
minha deambulação
retinida
Sylvia
Sylvia
touca totêmica
trançando meus pelos
escuros
eclusas
resíduos de enxergas
ao meu sono não sido
Virginia me envelhece
gravura de fumos
antigos
mulheres sem atalho
Martha avós dálias
bisnetas pigmentadas
do sulfúrico
entre o redemoinho de vermes
e o âmago do esconjuro
("minhas mulheres", in lacrimatórios, enócoas, RJ: Oficina Raquel, 2009)
20120604
Koré
À memória de Hilda Hilst
esta noite tatuaste em minha cintura uma borboleta
esfera comum do mistério
pé ante pé asmática cismo
o percurso pedra raptora
nenhum lençol azul a noite terá
teus olhos nenhuns
possuirão o que na perda
substancia
o vaso dilatado ao alcance
despeja a gotícula do vinho
mordo
a perigosa busca por flores
mallarmargens
... acabo de conhecer, por Mar Becker, mais uma ótima revista de literatura e arte, a MALLARMARGENS!
pelo alarde do nome, nada menos que um universo é o que virá desta página! visito-a desde já! já de cara com o prazer!...
20120528
alguns dos meus textos saltam: convite-drink para a FEIRA DO LIVRO DE RIBEIRÃO PRETO
+ de desfiladeiro, o texto calo, sobre a suavidade de morrer-se
calo
à Mira
e à
Tila
Um
rosto retangular, exaurido, de cor um pouco em bruma , reflete-a. Entretanto olhos, abertos ,
penumbras de uma bainha
desfeita , olhos
d’ água . Leya. Ocorre balançar
e com ela
as águas , o embranquecido cardume que em tudo em si ia
se formando dissolvido, os óleos o sabão os condimentos
flores ao longo, eiras do banho . Quando vê que está quente ,
insuportável quente , ela entra com o
pé , unha
esquerdos . Quando
realmente é quente
o tom e viço
das águas , muda ,
opaca , em
branco novamente ,
a liderança sobre o translúcido ,
tudo memória ,
põe o peso , deixa-se flagrar pela
latência lenta dos movimentos ,
é assim , nesse ponto
difuso , que
culmina a entrada de Leya na banheira . Transpirada, lembra-se, o outro, o que mandara construí-la em
tamanho abusivo, de altura
fora do esperado, sabendo o melhor para afundar
não apenas os pés .
Um tanque, um poço. Impossíveis. Insuportável. Não
lhe fazia os jeitos
os outros moldes, os que excluíam ora
cabeça , ora
joelhos , ora
olhos . Soube sempre, nas tabernas
instintivas, ser impermeável
tudo isso
e então o balneário
lasso, dando cabo às dimensões daquele recinto ,
inteiro . Que
olhos , cabeça
e joelhos deviam afundar
com o restante de si , peitos, costas, indícios .
Leya, a graça
diminuta daquela banheira
excepcional , sempre
murando-se do feito do pai, o pai nas garras da hidra , riria, aquela sua prática
de mergulho, que sim ,
hora ou
tanta, atravessava o jantar , esquecia-se por lá ,
arruinava animadas conversas , todas as
contas de quando o pai
se metia dentro e bifurcava as portas , trancava-se naquela cripta
de águas, e morria. Frequentemente era o comum ,
nos desfazeres
dos anos o costume
piora-se, tornando o armazém debaixo em horrores úmidos, o comércio
infla e murcha, ele dizia, os portões rendidos ao informe de tudo. Em andanças , a mãe ,
a irmã, ela , decididamente
ela , ajeitavam ao cotidiano
algumas lágrimas que
eram dali, daquela casa , daquele pai enlouquecendo em
banhos , daquele nostálgico batismo em cinco ou oito horas , nas
madrugadas , nas janelas
abertas , no trânsito
dos corpos enrugados, exauridos. Os julgamentos
eram os piores , não
atendia à receita ou
repreensão , as horas
da família e da seresta
que esperassem pelas águas , o pai
entrava novamente na enorme banheira .
Elogiava-se disso, resistia, era seu truque de permanência e aos setenta e quatro
encomendou três espelhos
retangulares, semelhante às proporções do tanque
e abotoou: um ao lado
esquerdo , entre
as duas dobras de suas
pernas e pias ,
outro curiosamente
inclinado entre a parede
esquerda e o teto ,
dando-se à branquidão suada, e o terceiro na correspondência
exata aonde
se deitava, no teto , no de cima . Fazia do banheiro
seu novo estado,
sua nova chance de nomenclatura branca,
amava dizer meu pântano branco, ia
preparando-se ao retorno inexato , que mancava interditos
nos demais ,
entretanto interlúdio
nele, faixa de outro
plano , ele
retornava com o ápice
quieto, a categoria dos místicos. Era em si mesmo, nenhum ofuscamento do divino
fora do corpo n’água. Era ali, ali retornou.
Leya profunda
nela. Ajeita o corpo que não é tão grande e
sendo leve , de carne ,
assusta os ossos que
n’água saltam maiores ,
esdrúxulos , ou
se mexem, dando sugestões de um outro corpo , um corpo talvez de
criança , faminta ,
burilada, um corpo
bem menor que aquele no
qual ela se fantasiava vendo, no ajuste do terceiro
espelho , tudo
sendo claro nevoento (alguém sugeriria que era melhor na névoa que no nítido?). O pai
quisera a questão de examinar
bem seu retrocesso e não
temeu quando a cartilagem
amolecida produzia sonoridades dos pingos, da rotatória, do ralo, uivos ou , quase
adormecendo, pareceriam flautas nas
veias. Foi encarando a dispersão por todos os ângulos . Ela se
lembra, no instante , o comportamento de cinema
dos últimos dias
do pai : um
sorriso e cabelo
prontos , a maior
quantidade de luzes
acesas pela casa
– todos já
banidos pelo cansaço do molhaçal ao qual
lhes embutira o pai
– e as velas dos quatro
cantos nunca
finadas, nunca vi quem
as trocava. Os últimos dias. O pai, gesticulava lento
como se outros, em
tela profundamente
posta, tivessem a seguir-lhe os caminhos ,
efusão dos vultos. Então ele
procurando-se atuar cardealmente
e a boca na busca de mover cada palavra límpida , forte .
A sensação nos
adestrou a olhar ao redor ,
caçar gente
que pudesse estar
por ali ,
nele, e os médicos não
alertando nada , o pai
lúcido como um tapete de estórias , fatalmente
verdadeiras, era uma cantiga que ele impunha. Como o mofo, uma sequência de heras
líquidas a liquidar as muralhas da casa. O costume
cessou por acastelar-se ali e ali era
ele, tudo aquilo. A mãe
já fazia um
pouco os velhos carinhos velhos, já pleiteava-se dama
daquela farsa opaca. Mas, à banheira ele sozinho, sempre .
Não era
boa ocasião olhá-lo ou
perguntar-lhe isso ou aquilo.
Leya
rumina, tenta enfrentar
aquela secura que
ela , no fiasco
dos olhos , casa
com o espelho
terceiro . Levanta as pernas e ainda
o sangue pisado nos
dois joelhos ,
ainda aquele
susto nela, ali afundado também , do momento
em que
o pai oscilou no passo
à sala , disse ou
atroz ou
sibilante o traquejo do ator ,
planou o suficiente de segundos para que ela
ocorresse em joelhos
e segurando-lhe a cabeça antes do chão. Machucar-se rente à queda do pai, por
ele. Apóia naquilo que é sangue dela o que
é volta dele, olha
olha olha
olha olha ,
incerta, amortecida, brava , pode-se perceber que houve um grito . Um grave e rouco de quem
sabe, reconhece as peripécias de um terror que se aproxima, suplica, engasga . Os cabelos
estavam perfeitamente ajeitados. Ele e os olhos .
Não podendo cuidar
do resto , Leya amaciou sua veste , quis
diálogo pôs as mãos
no bolso da camisa
do homem ido
e tirou de lá o lenço ,
sujo de ontem ,
quase o novo
se houvesse tempo para hoje. Abriu a gaveta
da escrivaninha , dezena
deles brancos e iguais .
Puxou o último , cheirou à distância
e trocou, o homem então é restaurando pelo objeto mais
cotidiano. Ainda , inútil ,
só memória ,
as mãos com
o lenço limpo ,
e disse-lhe com títulos
estrangulados, se poderia tomar o seu banho naquela banheira .
Leya que nunca .
Caminhou o corpo , velha
maquinaria da escrita ,
esforçando para retomar outra linha ao final da direita
impossível , árdua
tarefa , mantendo-se em
ziguezague na disposição dos dedos
desejosos, parece muito frágil tudo isso , muito simples .
Os outros faziam as despesas
insignificantes e taxaram hora , médico , legalidades e telefonemas
mudos . Leya direto
à água , ao legado
dos sais abejtos, ainda
uma partícula de célula
ou pó
que solidificasse os nomes , ser ela a filha , e não podendo dizer à mãe , ao pai ,
aquela situação impar
da necessidade da banheira ,
após as longas e curtas casas
paridas e falas absurdas que ela disse,
disse afoita , pediu: mãe e pai entro
no banho . Um
rosto amiúde ,
jaspe na cor ,
moita de juntas
inexpressivas, desfeitas , novas . Olha , o tempo mais , o terceiro espelho .
Tenta se levantar ,
doem seus múltiplos
joelhos , uma ossatura
roída pelo vapor ,
o tempo controlado pela
neblina . Quando
se fixa nas idéias
de desaparecimento , logo
abre mais a torneira
quente , o banheiro ,
a porta aberta
por esquecer-se, o quarto
entra no nevoeiro de si e quando
pensa, mais ainda, com obsessões, nos desaparecimentos, enjaula-se e finge e cantarola
uma música inventada com timidez. Ela aborta
a coluna rígida ,
deixa o pai
sentar-se com ela
na banheira , divide o espaço , divide-o até
o minúsculo. O desaparecimento aos
poucos, as brumas sob os joelhos. Sabe
que sangue e tempo têm tantas ocorrências , se empalharam na realidade
dessa textura , e liquidada ama aquele pai . Ama, desapareceu, ama. E não
usura mais
ser lida esferográfica e idêntica ,
toda a vida
trouxera as miudezas daquela banheira , toda
a vida que
viveu em outras casas
e estrangeira ao pai ,
em outros
pôde rarefazer a evidência
de si , prenha daquela água do pai , do
mundo absorvido do pai
e das insensatas telhas que encomendara, sem
uso , separando-a do movimento
real , da estrutura
real , da banheira de fato, esta bata arquivada de velhos
lenços , o seu
corpo branco .
Real.
Se alguém
se aproxima ela tranca ,
nenhum opressor
que lhe
dita . Faz-se horas ,
reconfigura, liga , regride, restringe,
põe a alma no jogo
dos três espelhos
e o maremoto confundir-se à vida , o teatro
parece-lhe confundido à vida ,
desaparecer vai tornando-se sacrílego criar, a vida .
Enquanto foz
daquela luz fosca
espalhada, assobiava o vapor para dentro , mexesse um pouco entre aquelas formas cansadas, e podendo, quando pôde,
entender, a banheira.
Levantou-se, três dela exageravam sua
mínima pessoa ,
a similitude das carnes aparecendo e sumindo, outras e outras, nada sendo mais
que aquilo ,
o desaparecimento . Os desaparecimentos . O pai
que morto .
Ela tão
ou mais
desaparecida dela, a brusca casca de água tolhendo
as relações, senta-se em si como uma
aldeã de um ato
primevo , quer sair, remover ,
bater braços, pernas . Nadar, mergulhar,
boiar. Agora já
sim de pé .
Escorre-se. O ralo das mordaças . Quando
sai abraça o pai ,
a mãe e a irmã. Invisível. Eles choram o
destino imprevisto. Mesmo
despercebidos dos louros que rugem nas faces
antes pardas de Leya, mesmo marcando igreja
e padre e roupas
brancas, o vestido de ataduras , não eles : eles têm funéreos lenços ,
ela que
trocara antes de tudo
o lenço sujo
do pai ele
agora suja
o novo , desesperado, resignado, preparando-se aos toques de Leya, a nova
Leya que abraça
a trindade do vácuo
e do som, e tenta , na imposição que era aquela ordem ,
que a vacina
de toda mácula se consumisse, se
exterminasse. Mas a mãe agarrando cabelos ,
quadros e bilhetes
guardados no criado emudecido,
obedecido, em luz ,
livro e revista .
A mãe procurando vocabulário. A mãe
vasculhando o corpo pequeno ,
enrugado da filha ,
o pai derrubando espelhos ,
a irmã atendendo os consolos dos que chegavam.
O
rosto retangulado, cavado branco e os olhos
tensos do vermelho ,
olhos d’água ,
desmedidos. No que boiava, a crispa da
recordação que ela
escolhera e tinha ao lado: uma carta do pai quando Leya fazia trinta anos
dizendo-lhe que preparasse a vida (era o
que fazia), explicando-lhe a causa do número – coisa divertida e séria
do pai – e um
vasilhame que
comprara neste aniversário e dentro dele os quatro
anéis dos quatro compromissos
de que ela
fugira e irando vergavam, fim . Não porque
pensara os detalhes daquela entrega. De
verdade, não queria ensurdecer a dor de ninguém com pretensa e crua sina de
despedir-se. Não preparara tanto a dureza
que era
seria o seu rosto de pedra lisa e perfeita ,
mas amando, amando o desaparecimento do pai dentro de si , da mãe , da
irmã, de si . Aquele rosto
combinando à água mais parecia um tablado de mármore
que uma acomodável bacia ,
dada a exatidão
do movimento fixo .
O que ainda
fluía em pequena
dosagem , já
quase interrompido
pelo frio e o
longínquo , eram tecidos
de sangue de seu
joelhos , de que
o pai se lembrava, tombando. Aquele vivo rubro , tom móvel de infância
e de rasantes risos ,
aquele lendo, demorando-se no lenço branco ,
costurando à memória. Leya impune, remediada. A dó
dos outros que
não desapareceram, nem desapareceriam.
Os outros mediados pela
fadiga e pela
ordem , em
meio a andar com coisas e sofrer com elas. No
passar parado das águas, enquanto não chegasse quem nela ousasse tocar, abrir e
destituir, o banho foi pintando sua homenagem plástica, numa bonança
desprogramada, comovendo demais. O vermelho atava o branco, docemente, à
sugestão contemplativa de um poente calmo. E das fugitivas mordidas e raivas do pai , mãe e outros ,
ficou ainda , como
se comprovasse com maçãs, o percurso estético
e tonal da tristeza: na água escurecendo
um tom compassado de rosa , um bendito tom de rosa , dominando o dia
dos banhos , dizendo baixo e naturalmente , a eficaz existência
da noite .
+ poemas inéditos do senda dedicada, na revista desenredos:
+ misto de poemas inéditos e publicados, na revista zunai:
+ poemas do livro fio, fenda, falésia, na revista desenredos:
+ diversos poemas avulsos, na seção 'poesia' aqui do blog:
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