20110118

requiem para um futuro submerso


A CHEIA

Primeiro encontra o parque, e as árvores

ficam vacilantes e húmidas;

mas todo o trânsito extinto sabe

que ficarão ainda submersos os campanários.

As casas danificadas, fileiras de tijolo,

estão límpidas como quartzo: a cor dilui-se

e torna-se ametista, - as coberturas das chaminés

e os cata-ventos estão espetados como barbatanas.

E lentamente descendo as ruas líquidas

automóveis e carros elétricos, de olhos esbugalhados,

resplandecentes e esmaltados como peixes de boca aberta,

são encaminhados para casa na maré suburbana.

Ao longo da costa mais arejada e mais elevada

até ao céu reluzente de minuto a minuto

têm andado dois maçaricos e deixaram

quatro pegadas em estrela, fortes e secas.

Para além da cidade, subaquática,

as colinas verdes transformam-se em conchas de verde musgo;

e na igreja, para avisar os navios que lhe passam por cima,

tocam os sinos oito vezes.

(Elisabeth Bishop. trad. Maria de Lourdes Guimarães)

2 comentários:

ana rüsche disse...

me fez bem. ah, um bom blogue pode salvar uma manhã.

iol disse...

rosa bonita