20080925

carnalidade, pênsil

aonde vou caminha
um mármore de sondas
obscuros canais
ligas

pousam atmosféricos
na bacia de meu tórax
e pintam a minha luz
com uma delicadeza leoparda

assim se mostram
involuntários dissensos
como um vidro
entre mim e o pardo

mas cavucam e num primeiro sono
o gato se levanta de sua estátua
e faz sombras andaluzas
na arcada de minha pestana
que convida

o pimenteiro de meu sexo
borbulha o homem que toca

para que o sangue
o sangue continue
batizando

- como um crime de pureza
as bocas as colinas as favas
devagar





Herberto Helder / Flash



















Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arrebatar-me furiosamente os cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Uma estrela voltaica.
E tragá-la. E de súbito toda aquela púrpura nocturna
entrar por mim dentro, da mão à cara.
Ou uma ferida que me apanhasse de perna a perna.
Entrar em mim
a fábula da demência e da animal
elegância. Sei que o sangue me pontua, e estremeço
de poro a poro
com tanto ouro suado que me envenena.

Sei que toco.
Que há uma combustão nas partes sexuais
da minha morte. E se olho esse espelho exalado
de mim mesmo, vejo
pérolas, a anestesia das pérolas. Mas
o fósforo precipita-se onde
arrefece a carne, e se torna ligeira. E uma dor
instrumental, a minha própria música
descoberta, enreda-me como o som enreda
os tubos de um órgão.

E então nenhuma razão me escurece além do crime,
da metáfora directa
de um leopardo aluado como uma jóia. E ele levanta
a constelação craniana. A boca avança, límpida
chaga
até ao meu rosto. E neste espelho das coisas de repente
unidas todas, beija-me por dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.



dedico à Renata, Virgínia, Mariana e António
pois que lendo constelavam em mim sulcos de suas imagens






20080924

visão 3

"porta extática debaixo dos raios"
(Herberto Helder)
















20080910

Velada



Improviso à Mariana, mér



Todas as noites
na esfinge de aconselhar seu dia
ela se escreve
escondida

Linha à linha prumo riste
seguem suas palavras
à sua olaria investigando
a cena do seu jarro de dor
a cena de seus rasantes altos
a cena de suas drogas
a cena de seus amores

Sem perceber disse a vida toda
e estava nu o papel
porque ontem dormiu mais cedo e
nem assim está descansada
no território em que todas as mulheres
são lobas afugentadas e iludidas

Ontem marcou um ponto no centro
de suas memórias
e partindo das bordas recolheu
à saia a voz muda daquelas palavras
buscando o véu do sentido


Sem perceber disse a vida toda
e sua presença se pôs na garganta
de onde eu velo a estrela de nossos rastros


e sideral pertenço à família
em que tu me alças:
o mais vibrante filamento de luz
enredando nas tuas letras
o sentido sanguíneo do encontro
de onde respira solta a palavra

amor

20080909

O Mundo

Ao Marcelo




O mundo.
(...)
Ele não é denso, pois nele tudo penetra tudo; ele não tem duração, pois vem sem ser chamado e desaparece quando se tenta retê-lo. Ele é confuso, se tu quiseres esclarecê-lo, ele escapa, se ele não te encontra, se dissipa; ele virá novamente, sem dúvida, mas transformado. Ele não está fora de ti. Ele repousa no âmago de teu ser, de tal modo que, se te referes a ele como “alma de minha alma”, não dizes nada de excessivo. Guarda-te, no entanto, da tentativa de transferi-lo para a tua alma, Tu o aniquilarias. Ele é o teu presente, e somente na medida em que o tiveres como tal é que terás a presença; podes fazer dele teu objeto, experenciá-lo e utilizá-lo, aliás, deves proceder assim continuamente, mas, então, não terás mais presença alguma. Entre ele e ti existe a reciprocidade da doação; tu lhe dizes Tu, e te entregas a ele; ele te diz Tu e te entrega a ti. Não podes entender-te com ninguém a respeito dele, és solitário no face-a-face com ele, mas ele te ensina a encontrar o outro e a manter o seu encontro. E, através da benevolência de sua chegada e da melancolia de sua partida, ele te conduz até o Tu no qual se encontram as linhas, apesar de paralelas, de todas as relações. Ele não te ajuda a conservar-te em vida, ele dá, porém, o pressentimento da eternidade. (...)






(BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Ed, 2006, p. 73).

20080908

provérbio alemão













O Rapto de Proserpina / Rembrandt







" Todo homem, ao nascer, já é bastante velho para morrer "

20080905

Os presépios


Eu estou me liberando de mim, então tu, irrompido, me adaga nos olhos e não me permites mais passar as tardes. Dizes como testemunho, coisa madura, lençóis. Dizes que não é árvore, colheita, centeio ou travessuras, mas que opaca dentro, nesse véu, eu trago sem medir, eu trago o que queres. Tu me ofereces mel nas ruas. Tu me convences de que estou anêmica por dentro. Tu dizes que há muita fumaça na origem da minha poesia e tuas formas dos animais me forçam a correr atrás do boomerangue, é assim? Dizes. Tu, com uma lua, eu negra dentro. E querer me libertar de mim é só um cheiro, deitar-me na cadeira verde, abrasar as flores, colher no repasto do chão os grãos que não foram esculpidos e aliciá-los, breve, no meio de mim, sim, deixa-me fazer os emplastros com óleo hortelã alfazema, misture-os bem míngua pelo pilar de mármore e teus braços que caiam sobre o centro de mim onde tudo isso se elabora para esquecer-se.

As frases longas escondem que fagulhas. Eu e Tu. Não além coisas. Essa brutalidade eu como o e elaborando encruzilhadas: três caminhos. Tu como um totem apontando a terra a verticalidade a linfa curvatura genital de um animal onde termina. Nossas mãos são curtas umas para as outras. Os vestígios foram parar nos sítios do cinema, dentro de imagens, pingando cera nos ouvidos quando escutar melhor não é nossa opção. Eu não te disse nada.

Tu não me dirás nada. Estou opaca para palavras. E ninguém como tu o soubesse. Não dormir não acordar então te pergunto, te pergunto. Irás rir, se o soubesse. Tempo demais boiando pelo torto, mas eu vejo tu, e quando tu sempre és sabemos como eu sei que eu sou eu. E a jaula é uma pequenina prece.

Entender mal seria um privilégio dos homens, pergunto, tu irás rir, se o soubesse. Rir porque desfalece a foice anterior, e uma menina uma menininha será olhada enquanto tu te transfiguras em ti. Havia uma outra que sempre soube e se disse a flor. Eu não via. Mas estou me liberando de mim, sutilmente, águas humores trajetórias calmas e paredes brancas. O trigo nos foi dado pelo carneiro, mas a musculação do dia vem do exercício duplo, lagoa morosa em que fazemos a paz. Isso são estrelas. Eu e Tu. Maníacos, cardeais, estéticos.

Nutres o meu passado. E eu vi pelo redor da cidade o cemitério cerâmica vermelha como o chão que piso. Eu vi o esplendor limpo do vermelho indistinto. Eu vi como alguém dizia teu nome o que me fez virar a cabeça para a direção do mar. Eu vi que sozinha podia passear com os sons, sem seguir nenhum atributo, sem mandalas, com os pés bambos, com os olhos siderados, licença pra contar o mundo que é tão teu e dos teus outros que no esconderijo não dizem aonde vou.

Arranque. Eu com este e emoldurando o buraco com este pente de caminhos com esta abundância. Tu com teu vergão simétrico tua flecha riste teu pêndulo grego de onde atleticamente eu salto ornamentada para o buraco. Os desenhos não nos mentem, só ouçamos. Tu tirando da saia tu passeando os cães tu assaltando ladrões de cavalos tu indo fugir para o Equador tu dedicado para o outro tu jazido onde eu não me lembro eu parindo ruas para o encontro eu fingindo o corpo que tudo bem eu vendendo uma criança a ciganos.

O homem idoso que és centauro de livros dizes ele é Tu, sem limites, sem costuras, preenchendo todo o horizonte. Isso não significa que nada mais existe a não ser ele, mas que tudo o mais vive em sua luz
antes de rumar ao pleno deserto onde vivemos


e tirando-te o direito de sonhar doando-te o presente mito e literatura
dois pulmões
arroxeados
as concavidades tudo ou nada eu digo
o céu não se espanta conosco

Tu, Martinho, do teutônico poder, bolha de sopé
para o encalço eu teutônico poder,

analogias para o dizer
eu só queria dizer Tu

antes do fim do tempo

20080904

Drummondiana / Canto Órfico








A dança já não soa,
a música deixou de ser palavra,
o cântico se alongou do movimento.
Orfeu, dividido, anda à procura
dessa unidade áurea, que perdemos.


Mundo desintegrado, tua essência
paira talvez na luz, mas neutra aos olhos
desaprendidos de ver; e sob a pele,
que turva imporosidade nos limita?
De ti a ti, abismo; e nele, os ecos
de uma prístina ciência, agora exangue.


Nem tua cifra sabemos; nem captá-la
dera poder de penetrar. Erra o mistério
em torno de seu núcleo. E restam poucos
encantamentos válidos. Talvez
um só e grave: tua ausência
ainda retumba em nós, e estremecemos
que uma perda se forma desses ganhos.


Tua medida, o silêncio a cinge e quase a insculpe,
braços do não-saber. Ó fabuloso
mudo paralítico surdo nato incógnito
na raiz da manhã que tarda, e tarde,
quando a linha do céu em nós se esfuma,
tornando-nos estrangeiros mais que estranhos.


No duelo das horas tua imagem
atravessa membranas sem que a sorte
se decida a escolher. As artes pétreas
recolhem-se a seus tardos movimentos.
Em vão: elas não podem.
Amplo,
vazio
um espaço estelar espreita os signos
que se farão doçura, convivência,
espanto de existir, e mão completa
caminhando surpresa noutro corpo.



A música se embala no possível,
no finito redondo, em que se crispa
uma agonia moderna. O canto é branco,
foge a si mesmo, vôos! palmas lentas
sobre o oceano estático: balanço
de anca terrestre, certa de morrer.



Orfeu, reúne-te! chama teus dispersos
e comovidos membros naturais,
e límpido reinaugura
o ritmo suficiente, que, nostálgico,
na nervura das folhas se limita,
quando não compõe no ar, que é todo frêmito,
uma espera de fustes, assombrada.



Orfeu, dá-nos teu número
de ouro, entre aparências
que vão do vão granito à linfa irônica.
Integra-nos, Orfeu, noutra mais densa
atmosfera do verso antes do canto,
do verso universo, latejante,
no primeiro silêncio,
promessa de homem, contorno ainda improvável
de deuses a nascer, clara suspeita
de luz no céu sem pássaros,
vazio musical a ser povoado
pelo olhar da sibila, circunspecto.



Orfeu, que te chamamos, baixa ao tempo
e escuta:
só de ousar-se teu nome, já respira
a rosa trimegista, aberta ao mundo.

(Carlos Drummond de Andrade. In: Poesia Completa. RJ: Nova Aguilar, 2003, p. 412-414)

20080902

ROMA







estela cerco pós de areia
os olhos barbados não escolhem
caminhos já desfeitos goela a vento
encontram já a ida que toda
não passa de retorno
à estela ao cerco pós de areia

entremeio passo e dança
o mato nu come a carne do plexo
e o sexo entrançado nos ouros
e gengivas dedilham porque amamos
a busca de não-estar

chegar adormecido ao início
já que o curvar-se é todo não deixar
de matar o que encurva
ganhar mão para tocar-te
cerca viva de jornada
só a isso e ao que endura

o fogo de não-estar
a lenha de não-haver
a dança de não-ir

nostálgico do não
lugar

20080901

Os mistérios de Elêusis / Parte I



Preparações

Em uma xícara descoberta nas escavações do território eleusino foi encontrada uma das mais antigas representações de Perséfone. Data do começo do período minóico, aproximadamente 2000 a.C. Dentro da xícara podemos ver duas mulheres dançando efusivamente ao redor da Deusa Serpente. A cabeça da Deusa descansa sobre um corpo triangulado, sem braços, rodeado por pequenos arcos. O seu corpo imediatamente nos lembra os tubos sacrificiais encontrados em Prinias, e em outros sítios helênicos, 1000 anos depois. Os tubos sacrificiais serviam para a comunicação com o reino subterrâneo. Este reino é indicado pela serpente, a qual está muito presente numa das versões do mito de Perséfone: Zeus, na forma de uma serpente, a seduz, sua própria filha. Serpentes e incesto são motivos arcaicos na mitologia. O número três (a tríade das personagens) também pode ser visto como um elemento arcaico. Ele ocorre no mito grego de Perséfone: suas duas companhias são constantemente Artemis e Athena. O Hino Homérico à Deméter (poema do período arcaico de 800 a.C., que nos conta como a deusa Deméter inaugurou os Mistérios), no entanto, menciona um numero indefinido de Okeanidai que brincam com Perséfone e colhem flores: isso combina com o estilo homérico, que esvai e apaga os traços arcaicos. Mas podemos reconhecer a mesma cena precedendo o rapto da deusa no Hino e também na xícara encontrada: Perséfone admirando uma flor.


A estrada sagrada

A degradação:

Elêusis, diferentemente de outros lugares que guardaram a experiência do sagrado, em suas ruínas ou na evocação de suas ruínas, ficou quase toda degradada. Por ser facilmente alcançada (fica a 20 Km de Atenas), o território repousa desencantado debaixo de uma poeira cinza-amarela, resíduo constante das fábricas de cimento que hoje ocupam a região. Já nos anos 20 (séc. XX) ônibus atravessam constantemente a Estrada Sagrada, a rota traçada entre Atenas e o local dos Mistérios. Ainda naquele tempo, entretanto, era possível encontrar, no início de abril, a estação das colheitas, um grupo de rameiros pela estrada. Um encontro precioso na estrada, pois isso sugeriria a fertilidade da planície Rharia, o espaço rural existente entre Thria e Elêusis, onde, nos tempos anteriores, grãos eram semeados de acordo com as instruções de Deméter.



Os Mistérios no tempo de Xerxes (480 a.C.) e Valentino (364 d.C): o mito

No dia 27 ou 28 de setembro do ano de 480 a.C., outro evento somado à batalha de Salamina é tido como ocorrido neste lugar localizado umas 12 milhas ao oeste da antiga Atenas. E este outro evento ilumina muito o que foi a vitória dos gregos na batalha. Não importa se isso foi uma invenção posterior ou uma visão que realmente aconteceu e na qual acreditou-se, na época. O que importa é que ela é de uma extrema importância para a compreensão da existência histórica do povo grego. Ela pode não ser, de fato, um acontecimento empírico, mas é, sim, um “ato do espírito humano”, como foram, nas palavras de Bachofen, as lendas que construíram seu lugar próprio na tradição histórica, as narrativas dos eventos que nunca ocorreram ou que não podem ser verificados mas que, se clara e fielmente interpretados, jogam luz na realidade histórica.
Havia dois gregos renegados no cortejo do rei persa. Um era o ateniense Dikaios, filho de Theokydes. Foi ele quem deu um testemunho do evento, que é contado por Heródoto. O outro renegado era Demaratos, rei banido de Esparta. Antes da batalha de Salamina, os dois, provavelmente com parte do exército persa, estavam na planície de Thria, através da qual corria a Estrada Sagrada. Todo o redor de Atenas estava desvastado. Os atenienses haviam fugido para seus navios ou haviam se retirado para as montanhas mais distantes. O dia do Mistério chegou. Normalmente, os atenienses deixavam Atenas no dia 19 do mês de Boëdromion – mais ou menos o 27 ou 28 de setembro – rumo à Elêusis, para lá celebrar a sagrada e misteriosa noite. Neste dia, do ano de 480 a.C, Dikaios e Demaratos, de pé sob a planície de Thria, testemunharam a cena que conto a seguir e que segue a história contada por Heródoto:
.... uma grande nuvem de poeira cor-de-rosa subiu em Elêusis, causada por uma multidão de aproximadamente trinta mil pessoas. Os dois observadores estavam admirados e se perguntavam que homens seriam aqueles, capazes de levantar tal poeira. Imediatamente diante deles, ouviram vozes que pareciam estar chorando, “Iakchos! Iakchos!”, durante o banquete dos Mistérios. Demaratos desconhecia as cerimônias de Elêusis e perguntou o que os gritos significavam. Dikaios, que depois narrou esta história, disse: ‘Demaratos, isso só pode significar que o exército do rei (Xerxes) sofrerá uma grande derrota. Porque uma coisa é certa: já que toda a Ática foi abandonada por seus habitantes, este som só pode ser uma divina ajuda que veio à Elêusis para salvar os atenienses e seus aliados. Se a poeira seguir ao Peloponeso, significa que o rei terá sua derrota em terra; se seguir ao canal de Salamina, o perigo do rei estará lá. Porque esse é o banquete que os atenienses celebram todos os anos em honra à Mãe e à Filha. Nesse festival, todos os atenienses, assim como os demais gregos que quiserem, são iniciados. As vozes que ouviste são o choro de ‘Iakchos’, que circulam o banquete’. Ao ouvi-lo, Demaratos diz: ‘Fica quieto e não mencione isso para mais ninguém. Se tuas palavras chegam ao ouvido do rei, perdes a cabeça. E ninguém poderá salvar-te. Fica em tua paz. Os deuses decidirão o caminho do todo’. Esse fora o alarme de Demaratos. Da poeira ascensional e das vozes chorosas, uma larga nuvem rumou à Salamina, onde os gregos acampavam. Ao ver isso, os dois homens sabiam que as embarcações de Xerxes estavam amaldiçoadas....
Essa é a história contada por Heródoto. Na nuvem de poeira e fumaça que está sempre sobre Elêusis aparece uma estranha e transfigurada luz. Em qualquer caso, um elemento da lenda miraculosa é a natureza do solo no território de Elêusis. Outro é o reconhecimento de que, no tempo das guerras persas, um montante de trinta mil foi iniciado nos Mistérios: um número redondo que, noutra parte de seu relato, Heródoto diz ser toda a população de Atenas.
Aparentemente o que aconteceu foi que a previdência divina, uma procissão de espíritos que não podiam ser vistos, apenas ouvidos, substituiu o trono festivo dos atenienses com seus gritos de “Iakchos” e auxiliaram-nos na batalha que os conduziu à vitória. O milagre não tem paralelo ou analogia na história da religião grega. Quando os Dióscoros ou Hércules aparecem na batalha, eles ajudam da maneira como lhes é esperado agir. Suas epifanias derivam de sua conhecida natureza heróica. Já a procissão dos espíritos foi uma expressão de perplexidade, uma expressão de um profundo alcance de que toda a existência grega estava absolutamente atada à celebração dos Mistérios de Elêusis. O que teria acontecido se, naqueles dias em que a existência dos gregos estava tão ameaçada, Eleusis tivesse cessado de ser o palco das cerimônias que nunca antes tinham sido interrompidas, desde sua fundação? Os gregos, como um todo e as pessoas de cada cidade, viam-se a si mesmos como a “humanidade”, como representantes de toda a raça humana...
Uma outra testemunha posterior expressou claramente que os gregos tinham o conhecimento de que sua existência estava ligada aos Mistérios de Elêusis. Ele não era um grego, mas era um devoto dos deuses e havia sido iniciado em Elêusis, chegando até o cargo de hierofante em outro templo. Seu nome era Vettius Agorius Praetextatus. Suas práticas religiosas, assim como suas honras políticas, estão gravadas numa inscrição em Roma. No ano 364 d.C., o imperador cristão Valentino proibiu todas as celebrações noturnas, na intenção de abolir, entre outros ritos, os Mistérios de Elêusis. Praetextatus, que havia sido cônsul na Grécia, declarou que a lei punha em risco toda a raça humana. Esse é um testemunho importante porque revela um significado central dos Mistérios de Elêusis: eles eram pensados como sustentadores de ‘toda a raça humana’, não apenas porque as pessoas continuavam vindo, de diversos locais, para serem iniciadas, como havia ocorrido nos tempos do imperador Adriano, mas também porque os Mistérios tocavam em algo que era comum a todos os homens. Eles estavam vinculados não apenas à existência grega, mas à existência em geral. E Praetextatus claramente disse isso: que bios, a vida, ficaria abiotos, impossível de ser vivida, pelos gregos, caso a cerimônia fosse proibida. Não há dúvidas de que aqui os ‘gregos’ são contrastados aos ‘cristãos’. A agudeza dessa formulação do significado de Elêusis, que não tem paralelo em nenhum outro documento anterior, emerge do conflito entre a religião grega e o cristianismo. Ainda assim, temos que nos focar no significado especial de Elêusis, que está para além de seu conflito com o cristianismo. Se a vida era impossível de ser vivida para os gregos, sem a sua anual celebração em Elêusis, isso significa que esta celebração não era apenas parte de uma existência não-cristã, mas sim a própria seiva da vida grega, sua forma mesma de existência. E esse é o foco que nos interessa. Apesar da enorme literatura devotada a eles, os mistérios eleusinos não foram ainda estudados do ponto de vista da existência grega, nem a existência grega foi considerada a partir da luz de Elêusis.



Testemunhos da Graça dos Iniciados

O estilo do hino em honra às duas deusas, Deméter, a Mãe, e Perséfone, a Filha, é homérico, e isso já nos aponta para as omissões de certos detalhes míticos que outros poetas não deixaram passar em silêncio. Após a Mãe e a Filha se reunirem, é brevemente relatado, por Homero, como Deméter restaurou à humanidade a fruta que ela havia retirado da terra em seu luto, o grão que antigamente crescia abundantemente na Planícia Rharian (o campo de Rharian, localizado em Elêusis, foi onde o primeiro grão germinou depois que Deméter – através de Triptolemo – ensinou a agricultura à humanidade) em Thria. Mas essa benção, com a qual ela expressou sua alegria, sobre a qual o que ela mesmo havia ganhado em Elêusis, não foi seu presente especial à humanidade: o presente essencial foram as cerimônias que ninguém pode descrever ou pronunciar. Nesse ponto o poeta queda quieto, não devido aos estilos homéricos, mas sim porque, como ele próprio diz, “o grande louvor dos deuses faz a voz calar”.
A ênfase central recai na ‘graça’ acontecida, conseguida pela participação no rito. A partir desse momento, o iniciado pode morrer, pois sua morte não está mais no domínio da imperfeição e da incerteza. Ou seja, durante a cerimônia são revelados os dois caminhos para a morte. Sófocles põe a mesma beatitude na boca de um personagem, provavelmente em sua tragédia “Triptolemos”. Dos poetas que falam dos Mistérios em sua forma de beatitude e graça, somente Píndaro nos diz algo de seu conteúdo. Ele fala de uma maneira que o iniciado pudesse reconhecer o segredo que as palavras camuflavam: “Abençoado é aquele que, depois de contemplar isto, entra pelo caminho abaixo da terra: ele sabe o fim da vida e o seu começo dados por Zeus”. “Fim” e “Começo” são, aparentemente, palavras sem força. Mas elas lembravam os iniciados de sua visão, na qual os dois são reunidos.
O iniciado possuía um conhecimento que conferia beatitute não apenas ao que se esperava após a morte. Ambas, a sabedoria e a beatitude, tornam-se sua possessão no momento em que ele contempla a visão. Ambos os presentes de Elêusis, uma felicidade aqui e além, são rezados pelo poeta Krinagoras, de Lesbos. Ele diz: “Aqueles que têm parte neles (nos Mistérios), possuem melhores esperanças no que concerne ao fim da vida e no que concerne a todo aion”. A ambiguidade está na palavra aion. Ela pode se referir à travessia da vida, caracterizando a vida individual de cada homem, como também, segundo Isokrates, pode se referir à duração do mundo. A participação nos Mistérios oferecia uma garantia à vida sem medo da morte, de uma confiança em encarar a morte. É por isso que os poetas olhavam os iniciados como seres superiores. Toda pessoa grega – na época, todo falante do grego, já que a língua era o critério – podia partilhar desse presente. Ele conferia à existência grega uma característica de senso de segurança, e porque ele era capaz disso, acabou por responder a uma necessidade espiritual que ultrapassava a língua grega.



O Fim dos Mistérios

Os Mistérios de Elêusis conferiram uma tal confiança na existência que provalvelmente se estendeu sobre um período de 2000 anos. O fim do santuário de Elêusis é relatado como tendo ocorrido no século V d.C, por Eunapios, historiador e biógrafo dos últimos filósofos gregos e oradores, na forma de uma profecia que teria sido concretizada quando Alarico, rei dos Godos, invadiu a Grécia em 396 d.C. Eunapios havia sido iniciado em Elêusis pelo último legítimo hierofonte, que já estava por ser negligenciado, quando um alto sacerdote lhe usurpa o título de hierofonte. Havia diversas regras sobre a conduta do hierofonte, cujo nome nunca devia ser pronuciado. A querela entre esses dois hierofontes acabou por ser testemunha não apenas do colapso dos Mistérios como também de toda uma mundividência. Os homens de vestimenta preta que se moviam com o rei Alarico eram monges. Uma nova forma de existência começou para a Grécia...
(a continuar)
(texto traduzido, resumido e mexido do grande Carl Kerenyi, Elêusis, Princeton University Press, 1991).