20101026

notas à Mostra, III



3. Nostalgia da luz, (FR/ALE/CHI). Dir. Patrício Guzman. (doc)



É tão impressionante ver, tatear, o antigo parentesco existente entre Saturno e Urano, conforme suas leituras astrológicas. E o deserto do Atacama pode ser um desses lugares de experimentação da arcaica lei hermética: “o que está acima é como o que está embaixo”. No plaino do deserto, homens cientistas revêem a origem das estrelas. No mesmo plaino, mães e irmãs, mulheres, procuram restos de ossos de seus filhos e parentes, assassinados por Pinochet e escondidos em retalhos sob aquelas areias. Saturno: memória, tempo que resiste, tempo que conserva. O trabalho árduo dessas mulheres de Calama, essas resistentes que não ousam deixar o tempo seguir em frente, não antes do passado ser bem enterrado, em sua dignidade de não ser esquecido. Bem enterrar o passado é não esquecer-se dele, é levantá-lo às estrelas, alçar um ponto luminoso a dor, só assim se dissuade o fantasma de todo o horror poder ter sido em vão. Nenhuma brutalidade pode ser vã, e por isso, mesmo 30 anos depois daquelas perdas, essas mulheres seguem diariamente para o Atacama e buscam pistas de pequenos pedaços de ossos espalhados pelo areal. Ao lado, ao mesmo tempo, diz um cientista: “não existe o presente”, ou seja, ele mostra: o tempo de percepção de uma ação vem em atraso, milímetros de segundo depois do gesto, então, o próprio gesto de dizer ‘sou’ e de tocar-se acontece sempre deslocado para trás, num átimo de segundos. E diz mais: não há gesto presente. Em relação às ações, tudo é passado. Se há presente, é apenas em nossa consciência, em nossos sonhos, em nosso material imaginário. Olhar as estrelas é uma espécie de transgressão desse hábito de nos pensarmos no presente. Ali, o que se vê, são corpos celestes mortos muitos, muitos anos atrás. E nosso olho humano vê a nu um passado de mil anos. No documentário Nostalgia da luz estas duas visadas se entrelaçam, formando a corda tênue da vida, essa combinação de um passado arcaico feito de pó estelar com esse passado humano feito de dor e ameaças de apagamento. É por isso que olhar para trás não só é amparar a transitoriedade de nossa experiência num grande bailado fora do tempo, como é também não deixar que a dissolução da memória faça de nós seres sem lugar. E outro cientista diz: a morte dos corpos estelares joga no espaço uma chuva de cálcio, e é esse o cálcio que está em nossos ossos. Cálcio que também está nos corpos torturados e perdidos, lançados ao deserto, cálcio que faz das mulheres que os procuram imensos monolitos da dignidade infatigável por justiça. E a dignidade humana é o lugar maior da beleza: o tempo é sempre outro. Saturno se enamora de Urano, a estrutura mais dura do nosso corpo é feita da mesma matéria que as estrelas, o nosso tempo de ontem e a nossa dor que nos levanta são também gestos de um tempo outro, um tempo fora do tempo, em que há muito gira e canta os mistérios da similitude. Aqui na terra como no céu, braços dados de contemplação e luta, de história e infinito.

TEMPO E PACTO

roldanas ancestrais,

noras de aço e geometria

preciso grau, grão

a girar fagulhas de estrela

e guardar

poeira tão luminosa

como se se visse aberto

o fundo do oceano

dentro dos olhos

nas sombras especulares dos pequeninos brilhos

transitórios, a caravana de poucas mulheres

todos os dias

abrem o livro insone do passado

com seus próprios traços de areia e vento

estamos sempre a repassar o passado

a deixar que não afundem nestas dunas

duravam as inscrições arcaicas

ritos fúnebres, é isto

a pedra do presente?

o passado mais próximo está encapsulado

cemitério que absorve seco a errância areia adentro

gravita sua própria dimensão de pó

conserva intacto o triturar dos dentes

nas ruínas de um campo de concentração, em Chacabuco

os ossos espalham sua vigília pela noite

mães investidas de pá e transparência

buscam sobras de seus amores

buscam há mais de 28 anos

(todo um ciclo de Saturno)

e não desistem, não deixam que

o obscuro

lhes roube aquela verdade

e dizem, gastas, já idosas:

são necessárias as arqueologias dos massacres

só assim nossos ossos

terão sido

ossos

estelares

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